Cancioneiro guasca
Descante à viola

(Desafio entre o Juquinha da Tapera e o Chico Cigarra.)

Chico:

- Seu Juquinha da Tapera,
Morador deste rincão,
Vamos discorrer, trovando
Em louvor de Santo Antão? -

Juca:

- Em louvor de Santo Antão,
Eu lhe topo amigo Chico:
Pois sou t'ronguenga no pinho;
No trovar, atrás não fico. -

C:

No trovar atrás não fico,
Que nisso sou forte e cuera;
Não costumo pagar mal,
Seu Juquinha da Tapera!

J:

Seu Juquinha da Tapera!
Nada lhe fica devendo;
Portanto, amigo Cigarra,
Se quiser - vá discorrendo!...

C:

Se quiser - vá discorrendo!...
Eu já discorrendo estou:
Você fez como o matungo,
Que na cancha se empacou...

J:

Que na cancha se empacou,
Fez você, que é sem capricho:
Fez como o burro manhoso,
Quando se aperta o rabicho...

C:

Quando se aperta o rabicho
Fiz em você, que é um bagual,
No dia emque lhe botei
Maneia, rédea e buçal!

J:

Maneia, rédea e buçal
Faz muito que já deixei;
Desd'aquela sexta-feira,
Quando a cola eu lhe quebrei!

C:

Quando a cola eu lhe quebrei
Foi no dia de marcação
E depois cravei-lhe os garfos,
E risquei p'ra Santo Antão.

J:

E risquei p'ra Santo Antão,
No fandango me achei;
E você se foi ao pasto
Como matungo de lei.

C:

Como matungo de lei,
Posso ser, porém no pinho;
Pois num rasgado sou mestre
E na trova ando sozinho!

J:

E na trova ando sozinho,
Dizem todos deste pago;
Não bebo cana fiada,
Nem ando chorando trago.

C:

Nem ando chorando trago,
A você, nem a ninguém;
Me fio nesta guaiaca,
Que ela, plata, sempre tem.

J:

Que ela, plata, sempre tem,
Tenho por opinião;
Não deixo mal um polpeiro
Na festa de Santo Antão.

C:

Na festa de Santo Antão
Vou dar um viva primeiro
Ao seu Maneco do Carmo,
O nosso guapo festeiro!

J:

O nosso guapo festeiro
É homem de estimação;
E por isso eu a Deus peço,
Que lhe ajude e à obrigação.

C:

Que lhe ajude e à obrigação,
Vou pedir, cá de bem longe:
À gente cá do Campestre,
E ao meu santo padre monge.

J:

E ao meu santo padre monge
Que esta capelinha ergueu;
Que, se vive, anda vivendo,
Se não vive - já morreu...

C:

Se não vive - já morreu,
Nos deixando sem conforto;
Pois até curava a gente
De sezões depois de morto!

J:

De sezões depois de morto,
Eu curo por simpatia:
Basta trazer o defunto
Para ver esta folia...

C:

Para ver esta folia,
Muita gente vem, seu Juca;
Uns trazem seu revirado,
Outros comem de... pussuca...

J:

Outros comem... de pussuca,
Por andarem recalcados
Como matungos da porta,
Todo o dialombilhados.

C:

Todo o dia lombilhados
Por terem manhas e baldas.
Para o ano, Deus permita,
Que o festeiro seja o Caldas.

J:

Que o festeiro seja o Caldas
Eu peço de coração;
O Caldas tem vaca gorda,
E é homem de opinião.

C:

E é homem de opinião,
Gaúcho e franco no mais;
Viva - o capitão do mastro
O Sr. Régio de Morais.

J:

O Sr. Régio de Morais
De quem nunca tive queixas;
E o alferes da bandeira,
Nosso bom amigo Seixas.

C:

Nosso bom amigo Seixas,
E a nossa bela festeira,
E o nosso doutor dos queixos*
Seu tenente da fogueira.

J:

Seu tenente da fogueira,
Comigo não dê cavaco;
Quando Deus me dá o trigo;
O demo me leva o saco.

C:

O demo me leva o saco.
E nele apincha o seu Juca,
Que na trova se mostrou
Carunchado e pururuca.

J:

Carunchado e pururuca
Não sou eu que por engano
Fui marcado na paleta;
Pois no ferro sou tirano!

C:

Pois no ferro sou tirano,
Oigalê! que sou ventana!
Nunca agüentei carona,
Quanto mais ''stando na cana!

J:

Quanto mais 'stando na cana!
Não arreio cartucheira;
Peleio lindo no mais...
Pois sou índio polvadeira!

C:

Pois sou índio polvadeira,
Como potro de palanque;
Quando entro num salseiro,
Ninguém há que me desbanque!

J:

Ninguém há que me desbanque,
Aqui, nem noutro lugar;
Quem desejar qu'experimente,
Que procurando, há de achar.

C:

Que procurando há de achar,
Caramba qu'isto é verdade!
Nem bem fiz a despedida,
Já me'stá dando a saudade.

J:

Já me'stá dando a saudade,
Já lhe sinto os seus rigores...
Daquela guampa de apojo;
Que me deu seu Chico Flores...

C:

Que me deu seu Chico Flores
Nesta festa do Campestre,
Onde sempre foi t'ronguenga
Onde sempre será - mestre.

J:

Onde sempre será - mestre,
Porque sempre foi assim;
Se se lembrar do Juquinha
Mande um ramo de alecrim.

C:

Mande um ramo de alecrim,
Que chegue para nós dois,
Que, senão, não cantarei
Na outra festa e depois!

J:

Na outra festa e depois,
Com você cantarei junto.
Mas, se um de nós morrer,
- Que você seja o defunto!...

C: - Que você seja o defunto,
- Essa agachada, aceito;
Se quiser, morra primeiro -
E eu lhe enterrarei com jeito.

J:

E eu lhe enterrarei com jeito,
Como enterro esta função:
Viva a festa do Campestre!
Viva o nosso Santo Antão!

* Era um cirurgião-dentista.

Cancioneiro guasca       Volta ao início da página