Revista Acadêmica de Medicina

v. 6, n. 1 e 2, jan/jun 2001

EDITORA CHEFE
Lívia Freire Brum

CONSELHO EDITORIAL
Alexandre Mitsuo Morita
Carlos Eduardo Ficht de Oliveira
Enrico Granzoto Fernanda Lago
Gisele Alsina Nader
Juliana Lima da Cunha
Juliana Rodrigues Zanatta
Lívia Freire Brum
Lysandro Alsina Nader
Marcela Godoy Dias
Maria Cristina Biesdorf
Raquel Fonseca Ferreira da Silva

CONSULTORES
Prof. André Luiz Haack
Prof. Farid Nader
Drª. Maria Cristina G. B. e Silva
Profª. Maria Tereza Natorf

CONSELHO CIENTÍFICO
Prof. Flávio Silveira Menezes
Prof. Gastão Fernandes Duval Neto
Prof. Gilberto Lima Garcias
Profª. Iná dos Santos
Prof. José Augusto Assumpção C. Ribeiro
Prof. José Francisco Pereira da Silva
Prof. Maurício da Silva Lima
Profª. Sandra Al Alam
Profª. Silvia Elaine Cardozo Macedo
Profª. Tanira F. Pires Barros
Prof. Umberto Lopes de Oliveira Filho

CONSELHO TÉCNICO
Normalização
Bibliotecária Carmen Lúcia Lobo Giusti

Revisão Ortográfica
Língua Portuguesa
André Coelho

Língua Inglesa
Enrico Granzoto
Gisele Alsina Nader

Layout e Editoração Eletrônica
JHBarbachã
Capa
JHBarbachã

     EDITORIAL

O Novo Sistema de Classificação da FM/UFPel
Fábio Braga

      A medicina é a profissão que gera o maior número de sociedades profissionais, de academias, de congressos, simpósios, encontros e jornadas, sem falar no grande número de publicações científicas recheadas de artigos, revisões, consensos e resumos. Não por acaso, é também a profissão em que a falta, o erro ou a demora de um diagnóstico pode ter como conseqüência a dor e o sofrimento e até a morte de seus usuários-pacientes. A ansiedade permeia a profissão e nos leva, desde os bancos acadêmicos, a muitas horas de estudo e a olhares preocupados para as notas dos colegas de faculdade, vistas como indicadoras de nosso progresso relativo.
      Premidos pelo modelo positivista, o qual diz que primeiro se ensina a teoria e depois se vai para a prática, os currículos médicos concentram o ensino prático no fim dos cursos, no chamado internato. Neste estágio do curso é que os alunos vão ver e atender mais pacientes, com maior grau de responsabilidade, e terão aí a percepção mais clara de que estão realmente aprendendo. Tem-se cogitado até mesmo a ampliação do internato, como uma forma não muito racional, diga-se de passagem, de corrigir as falhas do curso de graduação.
      Nossa escola, que nunca teve um hospital-escola próprio, nunca conseguiu oferecer este estágio a todos os alunos de cada turma. Por este motivo, sempre tivemos convênios com outros hospitais que oferecem estágios de internato a nossos alunos. Como são hospitais de grande porte e de centros maiores, as vagas para estes estágios são altamente disputadas por nossos alunos, e é compreensível que seja assim. Num hospital maior, o aluno poderá ver, exercer ou participar de um número muito maior de procedimentos, terá contato com um maior número de profissionais e, vivendo num centro maior, terá a oportunidade de participar de um meio cultural mais rico.
      Tradicionalmente, os alunos que recebiam as melhores notas nas provas, durante o curso, tinham a preferência pelas vagas fora de Pelotas e costumavam ocupá-las. Em nossa opinião, no entanto, este sistema gerava dois problemas. Primeiro, criava uma intensa disputa por notas dentro das turmas, aumentando a competitividade em um curso já bastante ansiogênico, e, em segundo lugar, era inteiramente dependente de um sistema de avaliação falho, já que limitado a apenas um indicador, a prova escrita. Já se disse que ao tentar avaliar o conhecimento de um aluno apenas pelo desempenho nas provas, o professor fica na mesma situação que um cego que tenta adivinhar o tamanho de um lago jogando pedras. Ele joga a pedra e, pelo barulho que escuta, sabe se pegou na água ou em terra. O professor joga perguntas...
      Propusemos então que a classificação fosse feita pelas notas e pelo currículo de cada aluno, e desta forma valorizamos a participação no ensino, através das monitorias, na pesquisa, nas atividades representativas e na extensão, além das notas. O projeto foi aprovado pelo Colegiado de Curso e, desde 1998, vem sendo progressivamente implementado, até chegarmos ao patamar atual, em que as notas têm peso 4 e o currículo, peso 6.
      O resultado deste novo sistema é que nossos alunos passaram a participar muito mais do ensino, da pesquisa e da extensão, enriquecendo nossa vida acadêmica. Atualmente, é cada vez maior o número de alunos que completam os pontos possíveis do currículo, evidenciando uma melhora significativa de nossa formação médica.

     ARTIGO ORIGINAL

Matutinidade-Vespertinidade e Desempenho Acadêmico
Marilene Farias Alam; Euclydes A. Santos

RESUMO

      O desempenho ao longo do dia apresenta variações individuais, permitindo a caracterização de tipos matutinos e vespertinos. As diferenças diurnas interindividuais no alerta subjetivo e ótimo desempenho são de grande importância. A fim de avaliar a distribuição dos tipos matutino e vespertino e estabelecer correlações entre desempenho acadêmico e matutinidade-vespertinidade, 39 estudantes de graduação (com idades entre 19 e 28 anos) em Oceanologia, da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Rio Grande/RS), preencheram o questionário de Horne e Ostberg (H&O)1. Com base nas pontuações obtidas, foram divididos em 4 categorias, a saber: Matutinos (MA), Moderadamente Matutinos (MM), Indiferentes (IN), Moderadamente Vespertinos (MV) e Vespertinos (VE). O desempenho acadêmico de 24 destes estudantes foi acompanhado pela tabulação das notas (médias) finais obtidas em disciplinas cursadas em diferentes horas do dia. Estes estudantes foram classificados como segue: MA – 0,0%; MM – 25%; IN – 62,5%; MV – 8,3% e VE – 4,2%. Foram analisadas 202 disciplinas. Observou-se uma pequena, porém significativa, correlação entre o escore H&O e o desempenho acadêmico (r = -0,20; P < 0,05), independentemente da hora do dia em que as disciplinas foram cursadas. Esta correlação mostrou-se especialmente acentuada se considerarmos as disciplinas cursadas no período noturno (r = -0,70; P < 0,05). Tais resultados sugerem que os tipos VE e MV têm, em geral, um melhor desempenho acadêmico. Estudos com amostras de maior tamanho são necessários para confirmar estes achados preliminares.

Palavras-chave: Ritmo circadiano, ritmo biológico, desempenho acadêmico, matutinidade-vespertinidade.


O Perfil Oftalmológico das Crianças que Participaram das Campanhas: Vacinação e Boa Visão de 1996, Pelotas-RS
Wladimir Ribeiro Duarte; Maria Tereza Natorff; Carla Paranhos;
Maria Claudete Ribeiro Duarte; Jussara Ribeiro Duarte Bocaccio;
Alexandre Mitsuo Morita; Carlos Eduardo Ficht Oliveira

RESUMO

      Este estudo descritivo e transversal foi realizado envolvendo as crianças que participaram das campanhas de vacinação antipoliomielite, realizadas nos meses de junho e setembro de 1996, na Faculdade de Medicina da UFPel. Após a análise dos dados acerca das 110 crianças que compuseram o estudo, constatou-se que a idade mais prevalente foi a de 4 anos com 43,5% do total; 64,5% eram do sexo feminino; apenas 8,3% haviam consultado previamente com oftalmologista; 68,2% tinham algum familiar com antecedente de doença oftalmológica; nenhuma criança usava método corretivo visual e 42% tinham déficit visual para o olho direito e 47% para o olho esquerdo. Os dados não mostraram associação entre baixa acuidade visual com o olho pesquisado ou o sexo (p>0,05).

Palavras-chave: Acuidade visual. Ambliopia. Triagem de massa. Testes visuais.

     ARTIGOS DE REVISÃO

Influência de Metais Pesados na Saúde
Edson Yorinobu Yamaguch; Caroline Teixeira Vasques; Massako Takahashi Dourado; Augusto da Silva Dourado

RESUMO

      Os metais pesados, representados principalmente pelo Mercúrio, Chumbo, Alumínio, Cádmio e Cromo, são elementos que não podem ser naturalmente metabolizados pelo organismo humano. Esses metais não são essenciais para as funções fisiológicas do nosso corpo e além disso combinam-se com um ou mais grupos reativos exercendo um efeito cumulativo e tóxico.

Palavras-chave: Metais pesados. Intoxicação. Mercúrio. Chumbo. Alumínio. Cádmio. Cromo.


Doença Ulcerosa Péptica - Revisão Atual da Literatura
Edevar Rodrigues Machado Júnior; Paulo Roberto Caponi.

RESUMO

      A úlcera péptica é uma patologia comum, sendo motivo freqüente de consultas em ambulatórios e serviços de emergência. A ocorrência de complicações relacionadas à úlcera (p. ex. hemorragia digestiva, estenose, perfuração) contribui com número significativo de internações hospitalares e procedimentos cirúrgicos, apresentando elevada mortalidade, particularmente em pacientes idosos. Portanto, o conhecimento da fisiopatologia e apresentação clínica é essencial para o diagnóstico precoce e manejo adequado do paciente. O presente artigo é baseado em revisão da literatura atual, sendo objetivo dos autores discutir aspectos importantes da fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da úlcera péptica.

Palavras-chave: Úlcera péptica. Fisiopatologia. Diagnóstico. Tratamento.

     RELATO DE CASO

Dermatomiosite
Cecília Fernandes Lorea, Otávio Hissé Gome, Umberto Lopes de Oliveira Filho, Maria da Graça Cardoso

RESUMO

      A dermatomiosite é uma patologia de natureza inflamatória, de etiologia desconhecida e ainda considerada rara, caracterizada pela inflamação mais proeminente da musculatura das cinturas pélvica e escapular e pele. Os autores apresentam uma revisão bibliográfica da doença e o caso de uma paciente de 35 anos, feminina, branca, sua evolução durante a internação e prognóstico.

Palavras-chave: Dermatomiosite. Miopatias. Doença do tecido conjuntivo.

     ARTIGOS-AULA

Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo – Parte II
Enrique Daniel Saldaña Garin; Fernando R.Silva.

MANEJO

      Antes de qualquer medida terapêutica para combater a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo – SDRA – é fundamental que haja a maior certeza possível quanto ao diagnóstico. Para isso, devemos lembrar de outros quadros com apresentação semelhante, mas de condutas divergentes, tais como: pneumonia eosinofílica, hemorragia alveolar difusa, vasculite pulmonar, linfangite carcinomatosa e SIDA. Para tal, procedimentos como a broncoscopia ou até mesmo a biópsia pulmonar podem ser utilizados.


A Educação Médica na Transição de Paradigma
Maria Elizabeth Urtiaga

      A reflexão sobre a sociedade moderna e seus conflitos permite visualizar sinais de que o modelo de racionalidade científica, dominante neste século, atravessa uma profunda crise. O homem racional está chegando a um esgotamento, e sua razão parece já não dar mais conta da sua natureza. Observamos o avanço que o paradigma da modernidade nos proporcionou, mas, por outro lado, também enxergamos suas contradições, que se expressam na marginalização e discriminação social, decorrentes das desigualdades econômicas. Os problemas que emergem com a globalização parecem expressar o esgotamento de um modelo que passa a necessitar que lancemos mão de outros conhecimentos e de outras ciências para entender as demandas deste novo milênio. Neves aborda o problema sinalizando que “a euforia inebriadora de um poder aparentemente infinito, que o homem vinha conquistando por meio dos desenvolvimentos tecnológicos, cede lugar a um sentimento profundo de angústia pela sua manifesta impotência perante as situações produzidas”. Na medicina, esta crise se faz transparecer no questionamento que vem atravessando a educação médica e os modelos pedagógicos atuais. A demanda do mundo globalizado vem exigindo profundas reflexões quanto ao profissional que as escolas médicas estão formando. A revolução tecnológica exigiu, desde o início deste século, um investimento maior na formação técnico-científica dos profissionais nas escolas, entretanto prescindiu de reflexões éticas fundamentais.

(CONTINUA)

     AUTO-AVALIAÇÃO

     DESCONTRAINDO

O Advento dos Raios-X
Alexandre Mitsuo Morita

     PONTO DE VISTA

Erro Médico
Guilherme Jorge Ceccagno

     O Erro é próprio da natureza humana.Todos nós erramos. Ao consultarmos o dicionário encontramos: “ERRO - s.m. - ato ou efeito de errar; juízo falso; incorreção; engano; falta; pecado; desvio do bom caminho”. O maior bem do ser humano é a vida, sua integridade física e emocional. É isso também que o Estado e o Direito protegem. O objetivo de toda prática médica é a Saúde do Homem. A medicina se ocupa da manutenção ou da recuperação da saúde do Homem, devendo usar conseqüentemente toda sua ciência, arte e dedicação na busca deste desiderato. A medicina é uma vocação. Como vocação que é, tem uma missão. É também uma profissão na medida em que esta missão for professada: “Cuidar da saúde do homem”. Este é o compromisso. Este é o imperativo ético. Tudo o que for feito ou deixado de fazer neste sentido é ético, não importando se, necessariamente, legal.      Toda prática médica é lícita, assim como toda prática profissional. O que não é lícito, porém, é exercer a prática médica com Imprudência, Imperícia e Negligência. Este é o ATO ILÍCITO que a lei pune, obrigando o agente a reparar o dano ou sofrer as sanções de natureza criminal. Do ponto de vista ético, valerá o convencimento do agente. Se ocorreu riscos tendo em vista o maior proveito do paciente foi ético. Se convencido do maior dano, suspendeu a ação, igualmente foi ético. Sua missão ética só estará terminada quando tiver certeza de que todos os lances se perderam e todos os dados foram jogados, apostando sempre na cura e no benefício do paciente. A prática do ato médico tem em vista sempre o proveito do paciente e é nesse sentido que é realizado. Não é lícito não agir ou interromper a ação preocupado com o possível dano, impossível às vezes de prever, ou, se previsível de ocorrer, omitir-se de apostar, na medida em que o resultado melhor também é possível de ocorrer... A moral heróica que inspira a deontologia obriga o médico a assumir o risco, que na lei penal, constituiria literalmente o dolo. O princípio geral “PRIMUM NON NOCERE” é sempre lembrado como norteador da ética médica, no intuito de não levar o médico a provocar dano. Vem ele de uma época em que pouco a medicina podia fazer. A medicina, entretanto, está voltada e comprometida com a ação. O médico é aquele que assume o encargo de cuidar, conseqüentemente, de SERVIR. Como seria mais cômodo, às vezes, “primum non nocere!”. Entretanto, o imperativo agir, leva o médico a assumir riscos, nem sempre possíveis de serem calculados com segurança. Esse princípio, nos dias de hoje, nos obriga a vê-lo apenas como CONTENSÃO, não ultrapassar os limites da prudência, não impedindo, entretanto, a intervenção responsável, comprometida com o apostar na cura, mesmo e apesar dos riscos. (CONTINUA...)

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